Chá de Sachê #02 | O ser humano e a perene barganha de dor

76800460“One must have chaos within to enable one to give birth to a dancing star.” – Nietzsche

Diariamente, pessoas se deparam com conflitos. Cada um com intensidade e atuantes em campos diferentes. Emocionais, passionais, profissionais, morais, econômicos, psicológicos, físicos, interpessoais; e o curioso é que sempre existe a tentativa de subterfúgio. Não importa a área neural em que o problema se aloje, a dor e autopunição agem imediatamente, como um líquido fluido por perto de uma esponja. Contamina.

Inflados com tanta dor, a tentativa de fuga atua novamente, como um belo ciclo vicioso que leva a frágil mente humana para o abismo de dores seguidas de outras dores, como em pequenas doses, o tolo ato de trocar dores por dores começa sem previsão de acabar. Quer ver como tenho razão?

Existem mulheres que morrem de medo da dor do parto normal e por conta disso o que fazem? Optam por outra dor, muito mais arriscada — partir sua barriga ao meio e levar uma anestesia na coluna. Procedimentos extremamente invasivos ao corpo e sem sombra de dúvidas tão dolorosos o quanto. Mas existe a ilusão de que a dor do parto será contornada com a anestesia, e brevemente esquecem que a recuperação de uma cesariana leva muito mais tempo e dor que o tão temido parto normal.

Veja que belo ato insano. Dor por dor.

Isso acontece também quando queremos correr da resolução de algo devido o stress estimado previamente. A atitude de usar correções paliativas desaguam em um resultado de longas datas com uma questão pendente, ocupando espaço saudável em nossa mente e gerando sobrecarga por qualquer outra gotinha de desequilíbrio cotidiano. É como deixar o vírus no pendrive; se você não remove quando nota a presença, ele sempre vai incomodar os sistemas de suas máquinas ao redor. Vai perder mais tempo fechando janela de alerta do antivírus do que se dedicasse 5 minutos do seu tempo para fazer a varredura completa. Ocupar espaço mental em um mundo que nos grita informação a cada segundo em suas propagandas, notícias e avanços é praticamente espojar-se ao abismo e acender um cigarro. É procurar sofrimento; note que voltamos ao ponto de gerar dor por dor.

Então, caro leitor, meu conselho é aceitar as realidades e entender que sempre sairemos vivos delas. A máxima desgastada do “problema sem solução solucionado está!” precisa ser considerada, sim. Peite, encare, aceite a dor primária, aceite os cortes que ela trará mas não se autoflagele com pequenas chibatadas de agonia. O medo do desconhecido nos leva a barganhar as dores novas por dores conhecidas, como culpa, stress, estafa, solidão, depressão, desânimo, carência, insônia — tudo isso para fingir que o problema não incomoda e ainda assim não solucioná-lo. Me parece pouco inteligente.

Sangraremos por soluções e jamais por lamentações.

Love, S.



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