Resenha | Dagon, de H.P. Lovecraft

Escrevo essa história sob uma pressão mental considerável, uma vez que hoje à noite me apago. Sem dinheiro, com o estoque da droga que torna a vida suportável próximo do fim, não aguento mais essa tortura; estou prestes a me atirar pela janela da água-furtada na desolação da rua lá embaixo. Não entenda minha dependência da morfina como uma fraqueza ou perversão. Quando o senhor ler essas páginas rabiscadas às pressas poderá entender, ainda que não por completo, a minha ânsia pelo esquecimento ou pela morte.

Ah, Howard Philips Lovecraft… Considerado o pai do terror psicológico, o autor conseguiu recriar um gênero que já se dava por firmado (especialmente por Edgar Allan Poe), através de seus contos nas revistas “pulp” da época. O parágrafo acima – retirado de um de seus primeiros textos – já mostra ao leitor o seu propósito: Brincar com o imaginário, a ponto de se fazer questionar o que é tão intrigante, a ponto de fazer uma pessoa perder sua sanidade. Fato, este, descrito por uma de suas mais famosas citações:

A emoção mais antiga e mais forte do homem é o medo, e o medo mais antigo e mais forte é o medo do desconhecido.

O mérito de H.P. Lovecraft deve-se à criação de todo um universo, rico e vasto, unindo diversos gêneros literários, como o terror e a ficção científica. Brincar com a magia, a tecnologia, o desconhecido, o espaço e a sanidade humana são seus méritos, e fazem de seus contos um parque de diversões macabro para os fãs de terror psicológico. Amantes de Stephen King e Edgar Allan Poe, por exemplo, se sentirão mais que em casa.

Agora que o tempo nos permite olhar para sua obra com algum distanciamento, parece não restar dúvida de que H.P. Lovecraft permanece insuperado como o maior expoente do terror clássico do século XX.” – Stephen King

Dagon, uma de suas obras primordiais, é um conto deveras curto – apenas seis páginas -, que conta a história de um supervisor de carga que, na época da grande guerra, é aprisionado pelas forças alemãs. Por gentileza dos captores, o protagonista consegue fugir, ficando à deriva em alto mar, e utilizando de seu conhecimento de navegação para salvar sua pele. Então, como em um pesadelo, o cenário muda completamente, e um pântano negro e fétido é apresentado.

Lovecraft, mesmo que um pouco prolixo, descreve a paisagem com perfeição. Desde a cor do lodo até o cheiro nauseante que paira sobre o ar, nos transporta para o ambiente degradante de sua história, na visão do pobre homem que se vê atracado num inferno lamacento. Utilizando-se de sua principal artimanha, a falta de detalhes de certos elementos descritivos faz com que o leitor tome conhecimento da magnitude do terror. Afinal, o que é tão assustador a ponto de não poder ser descrito em palavras, em troca de sua saúde mental?

Então, de repente eu vi. Com um leve rumor que marcou sua chegada à superfície, a coisa apareceu acima das águas escuras.

Assim como diversos autores de fantasia (J.R.R. Tolkien e J.K. Rowling, por exemplo), Lovecraft se utiliza de criaturas maravilhosas, tão sinistras quanto intrigantes. Seres mitológicos, deuses de outros universos, divindades terrestres e frutos de magia negra… Toda uma gama que, conto após conto, é inserido ao leitor, além de criar um vínculo com cada história, unificando as dimensões literárias do autor. Dagon nos introduz ao primeiro ser místico deste vasto universo, nos preparando para o folclore que se ergue de povos antigos, tão antigos quanto o Homem de Neanderthal.

Depois de uma grande revelação, é colocado à prova se todo o ocorrido é real, ou apenas meras alucinações. A psique humana, sendo usada como um elemento chave para a narrativa, é tensa, quase sufocante. Questões são levantadas, a curiosidade cresce, e nota-se que o conto de introdução já nos envolve e puxa para dentro de um abismo sem fim, conhecido como curiosidade. “Seria tudo isso um sonho? Sonhos podem ser tão reais, a ponto de criar feridas tão profundas? O que é real? Posso confiar no que a minha mente cria?” Isto, caro leitor, cabe a você decidir…

Por P.H. Lopes

Ficha Técnicaos-melhores-contos-de-h-p-lovecraft

Título Original: Dagon
Ano: 
1917
Páginas:
6
Publicado em: 
Os Melhores Contos de H.P. Lovecraft
Tradução:
Guilherme da Silva Braga
Editora:
Hedra

 



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