Resenha | O Navio Branco, de H.P. Lovecraft

“Além do lume, por mais de um século singraram as majestosas barcas dos sete mares. Na época do meu avô elas eram muitas; na época do meu pai, nem tantas; e hoje são tão poucas que eu às vezes sinto uma estranha solidão, como se eu fosse o último homem sobre a terra.”
Dando prosseguimento com as análises de seus contos mais famosos, H.P. Lovecraft começa surpreendendo o leitor com um iniciado que, surpreendentemente, o afasta de sua alcunha tenebrosa, inserindo-nos a um mundo de aventuras que até mesmo Simbah se surpreenderia em explorar.
O autor nos apresenta a Basil Elton, um vigia de faról que, em certas noites de luar, enxerga um curioso navio branco. Em certo momento, o simpático capitão o convida para juntar-se à tripulação, indo para terrar repletas de maravilhas inimagináveis.
É engraçado como, neste pequeno conto de 1919, Lovecraft utiliza-se à exaustão de descrições, o que vai contra a sua “marca registrada”. Com o espírito digno de uma aventura de Piratas do Caribe, o nobre Basil conhece as extensões do oceano, passando por cidades proibidas e macabras. Observamos, mesmo que de passagem, as cidades de Thalarion (A Cidade das Mil Maravilhas) e Xura (A Terra dos Prazeres Inalcançáveis), enriquecendo o vasto universo que Lovecraft se propôs a inventar.
“E foi ao brilho do luar que enfim lançamos âncora no porto de Sona-Nyl, vigiado por promontórios gêmeos de cristal que se erguem do mar e tocam-se em uma arcada resplendente. É o País dos Devaneios, e caminhamos até a orla verdejante em uma ponte de luar dourado.”
Nas páginas que se seguem, vemos o protagonista, agora morando em um paraíso que desconhece o tempo, a dor e a morte, ser tomado por um grande sentimento de descoberta e ganância. Com o objetivo de descobrir a cidade perdida de Cathuria, o mesmo se diz apto a abandonar os prazeres eternos e imemoriais, apenas para alcançar o País da Esperança.
O conceito de aplicabilidade é mais do que utilizado por aqui. Situações em que indivíduos resolvem arriscar, saindo de sua zona de segurança para buscar uma situação melhor, onde seus ideais sejam levados à perfeição. A gana de sempre melhorar, ser valorizado, correr atrás de seus sonhos (novos ou antigos) é retratada com maestria aqui. Até os próprios conselhos contraventores do simpático capitão do Navio Branco se assemelham às palavras sábias de quem conhece os riscos de tal aventura.
“Cuidado com os mares traiçoeiros onde dizem que Cathuria fica. Em Sona-Nyl não existe sofrimento nem morte, mas quem sabe ao certo o que se esconde além dos pilares basálticos do Ocidente?”
Em seu grandioso fim, Lovecraft nos surpreende, migrando uma aventura fantasiosa para um terror e agonia grandiosos, com um plot twist que lhe gela a espinha a cada releitura. A ganância pode ser o maior mal de um homem, e este mal é tão estupendo que seu fim torna-se apocalíptico.
Afinal, “os deuses são mais grandiosos que os homens, e eles venceram”.
Por P.H. Lopes

Ficha Técnicaos-melhores-contos-de-h-p-lovecraft

Título Original: The White Ship
Ano: 
1919
Páginas:
6
Publicado em: 
Os Melhores Contos de H.P. Lovecraft
Tradução:
Guilherme da Silva Braga
Editora:
Hedra



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